As Nuvens expulsaram-me!
O Chão não me aceita!
Perco-me no que tenho por dizer,
No que ainda há por fazer,
Mesmo quando sei que se diz mais
Quando se diz menos
E que venenos lascivos de bocas fatais
Acabam sempre por restar...
Pobres mortais de destino tão débil,
Tão intermitente, mas tão permanente...
Queria ser porto de vaidades,
De misérias, tormentos e desalentos,
Poder acalentar
Tudo e todos num só abraço.
Mas deito-me torturada por leviandades,
Automutilada por contrariedades,
Calada entre o diálogo da queda e do abismo...
Que o Paraíso e’ sempre um passo que não deste,
Que ficou por dar...
E ficas assim, com tudo por tomar,
Despida pelo maniqueísmo
Da tua insensatez voluntária de um momento
Que te assombra eternamente...
E prendes-te à cama de um minuto
Como se bastasse...
Os lençóis ensanguentados
Apoderam-se do teu egoísmo momentâneo,
Mostram-te a verdade nua e crua!
Despes-te de justificações
De racionalizações,
Vês-te ao espelho com as manchas
Que percorrem o teu corpo
E tentas cobri-las com humildade,
Compaixão, generosidade...
Mas as nódoas não desaparecem,
Como sangue que lavas repetidamente
E que escorre interminavelmente
Nas tuas mãos atormentadas,
Desmaiadas, aterrorizadas...
Os dedos fogem,
As unhas partem-se,
A cor perde-se...
Só a vergonha permanece!
Até a gravidade se sente humilhada
E ai vês que não há nada que pode
Possivelmente te abarcar,
Nada que te devolva o ar,
Que te faça pousar...
Sentes-te parada, imobilizada
Impotente...
Mas ninguém pode medir o que se sente,
Nem o que dizer e muito menos o que pensar...