segunda-feira, 26 de abril de 2010

Porque ninguém sabe que eu sonho com tardes inteiras passadas num banco de jardim, contigo deitado no meu colo, com a tua cabeça pousada no meu corpo calmo e sereno, a recitar poesia interminável a ouvidos sedentos de palavras que fazem sentido só para nós... Porque ninguém sabe que és um estranho em mim, um estranho invisível mas que vejo tão bem e sei de cor, como a mim mesma... E estás em mim como nunca esteve ninguém... Porque ninguém sabe que vivo à tua espera e da janela que esteve sempre aberta, nao vem ninguém... ninguém...

Outra vez na berma da estranha,

Nessa tão conhecida e percorrida estrada

Onde fiz das pedras que pisei,

Escadas para um novo céu

Que nunca cheguei a ver...

E volto ao inicio, como eterno ciclo que a terra tem,

Mas para quê afinal?

Para quê começar se vejo tudo a acabar,

A ruir, a destroçar?

Nada! Nada chega para alimentar o teu ego

Que me devorou inteira

E me desfez em pedaços triturados lentamente

Em meios termos torturados, arrancados a força

Onde me enforquei num silêncio de mágoa interminável ...

Pling! tic-tac partido, atirado para um poço vazio...

Fundo... demasiado fundo... demasiado...

E agora que tentas entrar de mansinho

Fecho-te a porta na cara, 

porque já não suporto nada em ti

Já nada te traz de volta, não a ti,

Quem eu sempre quis...

E é suposto olhar para ti?

Não consigo olhar sem ver

E em ti já não vejo nada...

Já não és nada...

Só um outrora gasto que iludiu o agora...

Um agora de rastos...

Um agora sem amanhãs... 

Vem... vem devagarinho

 E deixa pegadas no meu caminho...

terça-feira, 16 de março de 2010

Há momentos vizinhos de tudo o que esperei

Que nunca chegaram a ser...

Palavras que raspam a minha pele velha

De expectativas auto confirmatórias

Onde a minha voz se arrasta

imperceptivelmente...


Há dias assim...

Dias em que os nossos olhos

São como janelas fechadas,

Os nossos ouvidos retretes de insanidades,

Incursões e hostilidades.

Dias em que o ar perde-se contigo,

Desmaiado de vitalidade

Desfalecido no mofo da podridão

Humana e mesquinha,

Do vaivém inútil diário,

Onde o cheiro e’ sempre

O mesmo invariavelmente...

Até que os teus lábios são o sofá

Onde pouso os meus,

Num conforto egoísta e desmazelado,

Dor autista e conformista

Que já não espera mais nada além de dor...

Orgulho magoado por choro consentido,

Amor ignorado num beijo fingido,

Desespero controlado

Continuamente...

 

domingo, 24 de janeiro de 2010

As Nuvens expulsaram-me!

O Chão não me aceita!

Perco-me no que tenho por dizer,

No que ainda há por fazer,

Mesmo quando sei que se diz mais

Quando se diz menos

E que venenos lascivos de bocas fatais

Acabam sempre por restar...

Pobres mortais de destino tão débil,

Tão intermitente, mas tão permanente...

Queria ser porto de vaidades,

De misérias, tormentos e desalentos,

Poder acalentar

Tudo e todos num só abraço.

Mas deito-me torturada por leviandades,

Automutilada por contrariedades,

Calada entre o diálogo da queda e do abismo...

Que o Paraíso e’ sempre um passo que não deste,

Que ficou por dar...

E ficas assim, com tudo por tomar,

Despida pelo maniqueísmo

Da tua insensatez voluntária de um momento

Que te assombra eternamente...

E prendes-te à cama de um minuto

Como se bastasse...

Os lençóis ensanguentados

Apoderam-se do teu egoísmo momentâneo,

Mostram-te a verdade nua e crua!

Despes-te de justificações

De racionalizações,

Vês-te ao espelho com as manchas

Que percorrem o teu corpo

E tentas cobri-las com humildade,

Compaixão, generosidade...

Mas as nódoas não desaparecem,

Como sangue que lavas repetidamente

E que escorre interminavelmente

Nas tuas mãos atormentadas,

Desmaiadas, aterrorizadas...

Os dedos fogem,

As unhas partem-se,

A cor perde-se...

Só a vergonha permanece!

Até a gravidade se sente humilhada

E ai vês que não há nada que pode

Possivelmente te abarcar,

Nada que te devolva o ar,

Que te faça pousar...

Sentes-te parada, imobilizada

Impotente...

Mas ninguém pode medir o que se sente,

Nem o que dizer e muito menos o que pensar...