domingo, 24 de janeiro de 2010

As Nuvens expulsaram-me!

O Chão não me aceita!

Perco-me no que tenho por dizer,

No que ainda há por fazer,

Mesmo quando sei que se diz mais

Quando se diz menos

E que venenos lascivos de bocas fatais

Acabam sempre por restar...

Pobres mortais de destino tão débil,

Tão intermitente, mas tão permanente...

Queria ser porto de vaidades,

De misérias, tormentos e desalentos,

Poder acalentar

Tudo e todos num só abraço.

Mas deito-me torturada por leviandades,

Automutilada por contrariedades,

Calada entre o diálogo da queda e do abismo...

Que o Paraíso e’ sempre um passo que não deste,

Que ficou por dar...

E ficas assim, com tudo por tomar,

Despida pelo maniqueísmo

Da tua insensatez voluntária de um momento

Que te assombra eternamente...

E prendes-te à cama de um minuto

Como se bastasse...

Os lençóis ensanguentados

Apoderam-se do teu egoísmo momentâneo,

Mostram-te a verdade nua e crua!

Despes-te de justificações

De racionalizações,

Vês-te ao espelho com as manchas

Que percorrem o teu corpo

E tentas cobri-las com humildade,

Compaixão, generosidade...

Mas as nódoas não desaparecem,

Como sangue que lavas repetidamente

E que escorre interminavelmente

Nas tuas mãos atormentadas,

Desmaiadas, aterrorizadas...

Os dedos fogem,

As unhas partem-se,

A cor perde-se...

Só a vergonha permanece!

Até a gravidade se sente humilhada

E ai vês que não há nada que pode

Possivelmente te abarcar,

Nada que te devolva o ar,

Que te faça pousar...

Sentes-te parada, imobilizada

Impotente...

Mas ninguém pode medir o que se sente,

Nem o que dizer e muito menos o que pensar...