Mas como posso lembrar-me de ti se só se lembra de quem se esquece?
E como posso esquecer-te se só se esquece de quem está ausente?
Mas Tu… Tu que estás tão presente… tão imponente dentro de mim…
Como posso lembrar-me de ti se nunca te esqueci?...
Ao teu lado as manhas são perfeitas, os céus descobrem-se, as nuvens extinguem-se num manto de fome de poço sem fundo, onde fiel peregrino rastejas nos meus abismos sinuosos e perdes-te nas montanhas intermináveis do meu corpo, espantosamente isento de ontens… Devoto-me por inteiro aos teus olhos sedentos por me abrir e matar-me de desejo de rio que nasce nos oceanos e termina na fonte desidratada. A tua chave encaixa como jamais alguém entrou e abre portas para mundos de roseirais imaculados, agora desvirginados, desflorados incessantemente, entre pétalas de cores impensáveis… Atinges-me como sonhei ser impossível e afogas-te no beijo que nos derrete até untar os nossos corpos… percorres o meu desenho que só se vê no teu e cruzas os meus passos, que já são os teus, que sempre foram… E somos Nós! Não há mais nada a transparecer a não ser o instante em que os teus olhos tocam nos meus e entregam-se livremente outra vez…
Inútil!
Chegas e rasgas o tecido
Da vontade apertada,
Asfixiada
E completas-me
Em noites sem manhãs…
Devoras-me inteira
E terminas todos os anseios que iniciam.
Fazes-me tua como sempre fui
E fechas a porta atrás de ti
Porque sabes que não há mais ninguém.
Eu guardo-te mais dentro, bem dentro
Para nunca mais saíres….